terça-feira, 5 de março de 2013

Indústria nacional de filmes eróticos tenta se reinventar.


Após perder espaço para a internet e a pirataria, a indústria nacional de filmes eróticos tenta se reinventar.




Em um curto espaço de tempo, a história de paixão e sedução entre o bilionário Christian Grey e a estudante de literatura Anastasia Steele tornou-se conhecida mundialmente. 
Relatada na trilogia Cinquenta Tons de Cinza, sob os títulos de mesmo nome, Cinquenta Tons Mais Escuros e Cinquenta Tons de Liberdade, o caso não apenas mexeu nas relações conjugais como também fez reacender o mercado editorial erótico. 
Em seu lançamento no Brasil, em agosto do ano passado, o primeiro livro da série vendeu em 16 dias a metade da primeira edição – foram 100 mil das 200 mil cópias disponibilizadas, ou 6,25 mil diariamente. No mundo, já são 40 milhões de exemplares comercializados, fazendo dos livros da britânica Erika Leonard James o maior fenômeno editorial dos últimos tempos.
Mas se no papel o mercado do sexo vai bem, outra vertente desse setor tenta se reinventar desde que a internet tomou grande parte de seu espaço, nos anos 2000: os filmes pornôs. 
Segundo a presidente da Abeme (Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual), Paula Aguiar, atualmente as vendas de filmes eróticos não chegam a 1% do total comercializado pelo segmento. Na década de 1990, elas representavam até 60% de todo o mercado.



Naquela época, o país viu a migração de parte desse público dos famosos cinemas pornôs para o videocassete, que dava mais privacidade ao espectador. Ao longo do tempo, muitas das salas de exibição fecharam as portas e foram transformadas em templos religiosos. 
Depois veio a internet e tomou o lugar das fitas VHS. Hoje, há diversos concorrentes para os distribuidores oficiais das produções cinematográficas desse gênero, como as cópias pirateadas assistidas na tela do computador ou os shows, pagos com cartão de crédito, oferecidos na rede – ao vivo, personalizados de acordo com a preferência do cliente (e muitas vezes com um custo de produção ínfimo).
De acordo com dados da associação, em 2006 as produções eróticas geraram R$ 300 milhões em receita, 50% da movimentação do mercado adulto na época. “Só para se ter ideia, em 1962, quando foram lançadas as primeiras sex shops, elas não tinham filmes em seu portfólio. Isso foi mudando até que os vídeos ultrapassaram as vendas de produtos. Mas o grande boom acabou em 2004, quando a internet e a pirataria minaram os negócios”, conta Paula.
De fato, números do agregador de filmes pornôs PornWatchers.com, dos Estados Unidos, mostram que o mercado erótico na internet só tem crescido. Somente dois dos principais sites mundiais do segmento reúnem 735 mil vídeos, com uma média de 11 minutos cada um. Com o acervo, seria possível assistir às “produções” durante 16 anos sem que fosse preciso repetir o título. Enquanto isso, no mundo real, de 2006 para cá o setor enfrenta uma das suas piores crises.






FETICHISTAS EM ALTA

Uma das alternativas para enfrentar a queda foi estreitar as opções de filmes ao público, apostando em gêneros com maior potencial de venda. “Os vídeos fetichistas, voltados aos fãs de conteúdo bizarro, ainda têm bastante espaço; chegamos a exportar para a Europa”, afirma o criador e presidente da Erótika Fair e vice-presidente da Abeme, Evaldo Shiroma. A “customização”, porém, não foi suficiente para reerguer o mercado. “Na década de 1990, os filmes eróticos estavam presentes nas cerca de 15 mil locadoras do país. Hoje, não chegam a figurar em metade das 5 mil existentes”, contabiliza Shiroma.
Com a crise, muitas produtoras fecharam as portas. “Chegamos a ter 12 grandes nomes, entre produtores e distribuidores. Agora não saberia dizer exatamente, mas o número caiu muito”, diz o criador da Erótika Fair. Uma das sobreviventes é a Hardsexy. 
O proprietário (que preferiu não ter o nome divulgado) também está à frente de outros selos, voltados a filmes de ação, cult e até mesmo evangélicos. O empresário conta que, no auge da indústria, um vídeo chegava a vender 40 mil cópias em banca. Hoje, diz, dificilmente um DVD consegue alcançar 8 mil exemplares comercializados.
Mesmo diante do cenário difícil, o dono da Hardsexy não pensa em desistir. A justificativa é que, com menos concorrentes, uma lacuna foi aberta no setor. A próxima investida da produtora é um filme no segmento de Blu-ray 3D erótico que, segundo o empresário, será o primeiro da América Latina. 
O nome da produção ainda está em estudo. A volta das vendas em banca é outro ponto analisado por ele. “Estou há 23 anos nesse mercado, passei por todas as fases. Ganhei dinheiro, vivi a decadência, mas gosto de ir na contramão”, afirma. O otimismo, no entanto, não é o mesmo quando o assunto é lucro. “Tivemos de manter um preço justo”, diz. Na prática, isso significou reduzir valores. Os DVDs, por exemplo, que eram vendidos a R$ 25, custam atualmente R$ 17. O ritmo de lançamentos também diminuiu. De dez novas produções por mês, para uma média de duas.
Por outro lado, o preço de custo por cópia pago pelas produtoras também recuou. De acordo com o dono da Hard-sexy, no início dos anos 2000 pagava-se US$ 9 por um DVD. Esse valor gira em torno dos US$ 2, atualmente. Mas o que o setor ganha com a redução de preço das cópias, perde com a pirataria. “Não tem como concorrer. Lanço um filme e no outro dia ele já está na internet. Existem vários processos contra quem faz isso; é o máximo que podemos fazer”, conta.


CACHÊ MENOR

Casos como o da Hardsexy, que segue um plano de expansão mesmo diante das dificuldades, são exceções nesse mercado. Enfrentar a concorrência do mundo online fez com que muitos players do setor simplesmente sumissem das prateleiras, o que se refletiu também no cachê dos atores. “Cheguei a receber R$ 1,5 mil por uma cena sem camisinha. Hoje, não ganho R$ 800. É importante explicar que sempre fazemos exames antes dos filmes e por isso é comum não usarmos o preservativo”, conta Patrícia Kimberly, que desde 2006 já atuou em cerca de 200 produções, entre elas Carnaval do Frota.
O recuo aconteceu não apenas no valor recebido por ela a cada vez que contracena, como também no número de filmes em que atua. Nos primeiros anos como atriz pornô, não era raro participar de dez produções por mês – o que lhe rendia algo em torno de R$ 15 mil. “Agora, levo quase um mês para fazer uma única cena”, afirma. A baixa no orçamento fez Patrícia investir em outra área dentro do mercado do sexo. Há três anos, ela intensificou os programas, que faz de segunda-feira a sábado. Para cada hora, a atriz pornô diz cobrar R$ 300 e, segundo conta, a participação em filmes destinados ao público adulto ajuda na hora de dar o preço. “Muitos me procuram por causa do site, que inaugurei em 2010, mas a maior parte vem depois de ver algum filme meu”, diz. Os três programas que faz em média, diariamente, têm ajudado Patrícia a equilibrar as contas.
Com um portfólio de aproximadamente 2 mil filmes e há 11 anos na indústria de filmes pornôs, o ator Loupan (nome artístico) encontrou uma forma de concorrer com os milhares de filmes encontrados no mundo virtual. “Tenho uma parceria com um produtor e fazemos filmes de boa qualidade para um site. Não é porque vai para a internet que precisa ser algo caseiro. Uma cena boa chega a valer US$ 3 mil. Essa é a diferença entre uma produção séria e uma feita de qualquer jeito”, diz. Atuando assim há três anos, Loupan diz que conseguiu manter o padrão de vida. “Fazia entre 15 e 16 filmes por mês, hoje faço entre seis e oito, mas em termos salariais não mudou muito”, diz.

 


Nos tempos da pornochanchada 

Um dos gêneros mais emblemáticos na história da indústria de filmes eróticos no Brasil foi a pornochanchada, surgida na década de 1970. Mesmo sem contar com cenas de sexo explícito, as produções tinham um alto grau de sensualidade – bem como de humor – e revelaram muitos atores hoje famosos no mundo televisivo. Um exemplo é Nuno Leal Maia, protagonista de O Bem Dotado – o Homem de Itu, de 1978, filme que contou com outros nomes conhecidos, caso de Paulo Goulart, Marcos Caruso e Fulvio Stefanini.
Histórias que Nossas Babás não Contavam foi mais uma das produções conhecidas da época. Dirigido por Oswaldo de Oliveira, o filme é uma paródia da história de Branca de Neve e tinha no elenco personalidades como o comediante Costinha no papel do caçador. Gretchen, Rita Cadillac, Matilde Mastrangi, Jece Valadão, Norma Bengell, Vera Fischer e Carlo Mossy são outros nomes conhecidos na área. Entre os diretores, destacaram-se Claudio Cunha e Fauzi Mansur, entre outros. Um dos polos dessa indústria foi a chamada Boca do Lixo, região localizada no centro de São Paulo, conhecida hoje como Cracolândia.


Polêmica no berço do pornô

A crise na indústria de filmes pornôs não se limita ao Brasil. Em outros grandes mercados como os Estados Unidos, de onde vem a maior parte das produções, muitas companhias ligadas ao entretenimento adulto também tiveram de fechar as portas. Steven Hirsch, dono da Vivid Entertainment, uma das maiores empresas do país nesse segmento, chegou a afirmar em algumas entrevistas que esse é o pior momento vivido pelo setor em 25 anos. Entre outras coisas, ele destaca que, assim como no Brasil, a pirataria e a concorrência com a internet minaram os negócios. A crise financeira que se arrasta desde o final de 2008 contribuiu para a piora de um cenário já ruim.
Uma das últimas polêmicas no mercado americano envolve a obrigatoriedade do uso de preservativos nos filmes. A Medida B, como a lei é conhecida, foi aprovada por eleitores californianos em novembro de 2012 e teve o apoio da Fundação Aids Healthcare. 
As produtoras Vivid Entertainment e Califa Productions (outra gigante do setor) rebatem a regulamentação ao afirmar que a lei viola a liberdade de expressão. A Califórnia é o principal polo de realização desse tipo de filme em território americano, onde as produções foram liberadas em 1980. Segundo os empresários da área, o rigor da legislação será mais um entrave em um setor que já está em crise há alguns anos.
As discussões começaram depois de boatos sobre a contaminação de atores pornôs pelo vírus HIV. Também houve uma onda de contágios por sífilis entre os profissionais. Em 2011, produtoras de Los Angeles suspenderam as atividades por 60 dias para que vários atores realizassem exames. Um ano antes, na mesma cidade, durante duas semanas as filmagens também ficaram paradas em quatro produtoras, depois que um dos funcionários declarou ser soropositivo.


fonte: America e Economia Brasil (UOL)

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