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sábado, 16 de julho de 2011

Revolução Vascaína profissionalizou o futebol



O Vasco da Gama foi um time que transformou a história do futebol brasileiro. Segundo o historiador João Manuel Casquinha Malaia Santos, a caminhada do clube entre os anos 1915 e 1934 definiu as características do esporte no Brasil. Graças ao Vasco, o mundo do futebol percebeu que conceber o esporte como negócio poderia produzir grandes espetáculos, lotar estádios, gerar renda para os clubes, dar prestígio aos dirigentes e sócios e até abrir meios para que pessoas das camadas menos abastadas do Rio de Janeiro conquistassem relativa e aparente visibilidade. A ascensão do time também significou para os portugueses a reafirmação de sua identidade na sociedade brasileira.
Malaia pesquisou o tema em sua tese Revolução Vascaína: a profissionalização do futebol e inserção sócio-econômica de negros e portugueses na cidade do Rio de Janeiro (1915-1934), realizada pelo Programa de Pós-Graduação em História Econômica da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. O estudo foi baseado em análises de documentos dos acervos de times cariocas e europeus, de documentos da Biblioteca Nacional, e da documentação do Arquivo Nacional.
De acordo com o pesquisador, até que o Vasco iniciasse o que ficou conhecido como Revolução Vascaína, o futebol praticado entre os clubes da principal liga do Rio de Janeiro, A Liga Metropolitana de Desportes Terrestres (LMDT), era quase uma exclusividade dos membros da elite carioca. Segundo o pesquisador, “A Revolução Vascaína colaborou para a transformação desse quadro”.
“Iniciada pelo português Raul Campos, presidente do clube em 1919, ela foi o conjunto de medidas introduzidas pelo clube que culminaram no desenvolvimento do esporte como profissional no país, transformando o futebol no mais conhecido espetáculo de massa do Brasil.”
A pesquisa mostra que os times que faziam parte da LMDT eram formados, em sua maioria, por jogadores brancos, alfabetizados e que exerciam profissão não braçal. Ou seja, representavam os membros das classes mais abastadas da sociedade.
As análises de Malaia revelaram que, contrariando a maré, Raul Campos percebeu que poderia utilizar o talento de homens pobres, oriundos do subúrbio do Rio de Janeiro, aliado a suas necessidades financeiras, para montar uma equipe de jogadores dedicada integralmente aos treinos e aos jogos. O Vasco passou então a contratar essas pessoas, mesmo que por debaixo dos panos, pagando-os para jogar. “O valor do salário era melhor que o pago por um serviço braçal fora dos campos, mesmo que muito baixo em relação ao que o clube começou a ganhar com o sucesso da equipe”, revela o historiador.

Em 1922, o time foi campeão da série B da primeira divisão
Os negócios de Campos 
No início da presidência de Campos, que Malaia chama de “o verdadeiro business man português”, o Vasco ainda não era um dos grandes times do futebol carioca. “Mas a dedicação exclusiva dos jogadores, incentivada pelos salários, os capacitou para produzir os maiores ‘shows’ que os campos poderiam receber até então. E, além da inegável habilidade diferenciada dos jogadores, os jogos do Vasco começaram a contar com uma torcida cada vez maior”, diz o pesquisador. “O povo no campo atraía o povo na arquibancada, e logicamente o Vasco e os outros clubes passaram a perceber isso”, completa. “Inclusive, a partir do momento em que o futebol se torna um espetáculo, os casos de violência aumentam, mas existiam desde o início do futebol”, afirma.
A ascensão do time formado por negros e pobres preocupou a elite que “achava que o futebol era dela”, afirma o autor do estudo. Mesmo com todo o talento evidenciado nos jogos, o clube dos portugueses e suburbanos enfrentou muitas dificuldades para participar tanto da LMDT quanto da mais tarde Associação Metropolitana de Esportes (AMEA), uma liga criada em 1924 praticamente para excluir os jogadores vascaínos do futebol dos grandes clubes. “Os vários episódios com os quais o Vasco se deparou, como a restrição que determinava que sem estádio próprio o time não participava da liga, revelam a montagem da sociedade naquela época. Negros e pobres não tinham o mesmo espaço que os membros da elite tinham na comunidade carioca”.
Mas foi a própria lógica capitalista que mudou tal situação. De acordo com o estudo, em 1927, a construção do Estádio do São Januário, considerado na época o maior estádio de futebol da América Latina, mostrou a força do time e tornou seu sucesso ainda mais inegável. “O estádio foi o resultado da mobilidade da comunidade dos sócios, como nunca visto antes na história de um clube. Ele foi totalmente construído com doações dos vascaínos, com os melhores materiais e melhor arquitetura”, salienta o pesquisador.

Os jogadores vascaínos celebram a inauguração do São Januário, o maior estádio da América Latina naquela época
Com o estádio próprio, a renda do clube era cada vez maior. Essa situação fez com que, para a principal Liga, ter o Vasco como um dos componentes passasse a ser até uma questão de necessidade. Afinal, como diz o historiador, “a venda de ingressos faz o capital circular no universo dos clubes, e isso é muito do que uma liga deseja”. “Os jogos do Vasco eram com certeza os que mais vendiam ingresso”, complementa Malaia.
Profissionalizado, mas não valorizado
Apesar da luta pela profissionalização dos jogadores, da popularização dos campos e das arquibancadas, a diretoria e os sócios do clube continuavam elitizados. No período entre o final da República Velha e o início da Era Vargas, os jogadores vascaínos, “verdadeiros artistas, responsáveis pela ascensão do time no Brasil e do futebol brasileiro até mesmo na Europa, não tinham seu espetáculo traduzido em suas contas bancárias”, diz o pesquisador.
Segundo Malaia, essa não valorização do jogador do Vasco, assim como aconteceu também em outros clubes, reflete que a inserção do negro, morador do subúrbio, no universo do futebol se limitava aos campos e estava inserida na própria lógica capitalista. “Com a profissionalização, isso ficou mais evidente. O jogador torna-se empregado, e não sócio, abrindo espaço para que a discriminação continuasse mesmo no cotidiano do próprio clube”.
Além disso, o pesquisador aponta que diversos episódios revelavam o descuido e desleixo que o clube tinha para com os jogadores, caso esses se machucassem em campo ou tivessem qualquer outro problema de saúde que os impedisse de jogar. Dessa forma, o aumento de ingressos vendidos não significava, para “empregados do clube”, melhoria das condições de trabalho, ou mesmo de salário. Malaia conta que essa situação fez surgir, em meados da década de 1930, algumas tentativas de formação de sindicatos, por parte dos jogadores. “Isso não se consolidou porque o Brasil estava mergulhado no contexto da presidência de Getúlio Vargas, com seus sindicatos pelegos, controlados pelo Estado”, explica.
A orientação do trabalho foi da professora Esmeralda Moura. A defesa aconteceu no dia 07 de junho de 2010 .
As imagens foram obtidas pelo pesquisador no acervo do Centro de Memórias do C. R. Vasco da Gama, no acervo do Centro de Memória do Fluminense Football Club e na página online da Biblioteca Nacional.


fonte: http://www.usp.br/agen/?p=44584

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Cinemas de arte alteram o espaço urbano paulistano



Os cinemas de arte, como os da região da Av. Paulista, causam maiores transformações físicas e sociais no espaço urbano do que as grandes redes instaladas nos shoppings centers. Na cidade de São Paulo, estas salas de exibição representam 11% das poltronas e possuem programação regular. Diferentemente dos multiplex (localizados nos shoppings), os cinemas de arte se instalam em vias públicas, galerias e espaços culturais e não têm padronização de salas ou logomarcas, exibindo lançamentos norte americanos independentes, europeus, asiáticos, sul americanos, entre outros.
O geógrafo Eduardo Baider Stefani realizou um levantamento das salas cinema da cidade para entender como elas estão distribuídas espacialmente e quais as repercussões sociais dessa distribuição no espaço urbano. “Procurei entender como um determinado tipo de cinema cria um determinado tipo de público e como os diferentes públicos modificam o espaço urbano”, explica.
O tamanho da cidade de São Paulo proporciona a existência de um circuito de cinemas de arte
O tamanho de São Paulo dá condições para que exista um circuito de cinemas de arte
Para sua pesquisa de mestrado “A geografia dos cinemas no lazer paulistano contemporâneo: redes e territorialidades dos cinemas de arte e multiplex”, apresentada na  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e orientada pelo professor Júlio César Suzuki, Baider recorreu à bibliografia e a guias semanais de jornais. Também realizou entrevistas em campo, de caráter qualitativo, com frequentadores dos diversos tipos de cinema. As questões abordaram as características dos públicos e  os motivos da escolha dos cinemas, entre outras.
Multiplex e Artes
Baider identificou dois grandes grupos de cinema, relacionados à quantidade e tipo de público, quanto aos filmes exibidos, entre outros: os cinemas Multiplex e os, já citados, cinemas de arte.
Os multiplex representam 85% das salas da cidade. Para o pesquisador, eles são resultado da transformação do cinema enquanto lazer. Nos anos 1950 e 1960, os filmes eram produtos genéricos, exibidos em salas com 1.500 a 2.000 lugares e atraindo todo tipo de público. “O multiplex surge, no fim dos anos 1980, quando a indústria cinematográfica começa a criar produtos para públicos específicos” explica.  “Eles possuem salas menores e padronizadas, com 150 a 400 lugares e estão dispostos, preponderantemente, em Shoppings Centers”.
A partir das entrevistas, Baider observou que os frequentadores dos multiplex utilizam o espaço do shopping de maneira mais temporária e menos permanente e sólida. Ele fica limitado a um espaço urbano cerceado e controlado pelas regras do shopping. “Esse frequentador vê o cinema como um lazer. Quando ele muda de amizades, de namorada, de tipo de entretenimento, por exemplo, ele também muda de cinema” avalia Baider.
Já o frequentador do cinema de arte está mais preocupado com o conteúdo do filme, e não com as tecnologias das salas de exibição. “O espectador, nesse caso, vê o produto fílmico, não como um simples entretenimento, mas como uma forma de adquirir cultura. Ele se propõe a consumir o filme como um lazer ativo”, analisa o pesquisador.
Diferentes interferências urbanas Os cinemas de arte propiciam transformações urbanas mais intensas, sólidas e perceptíveis do que os multiplex. “Por exemplo, temos uma territorialidade de cinemas de arte e seus frequentadores na área da avenida Paulista, que foi fomentada quando o mercado percebeu a movimentação de frequentadores em função dos primeiros cinemas de arte, como o Espaço Unibanco, o HSBC e outros. A partir daí, novos cinemas foram se instalando e consolidando a cena alternativa da região”, analisa Baider.
Para Baider, esse circuito alternativo só é possível devido à imponência espaço-social de São Paulo, que têm a capacidade de fomentar diversos tipos de público e criar um circuito de cinemas de arte e diversos outros lazeres relacionados. O mesmo não ocorre em cidades menores, que possuem poucos cinemas de arte.
Expansão das grandes redes
Segundo o pesquisador, os multiplex pertencem a poucas redes de exibição, que tentam mapear o espaço da cidade para obter o maior lucro possível. “Os primeiros multiplex se instalaram em shoppings do centro expandido. Hoje, a região central já é um espaço bem mapeado, e a expansão se dá agora em shoppings da periferia, como Itaquera e Aricanduva”, relata o pesquisador.
“Seria interessante pensar em políticas públicas a partir de instalações de equipamentos culturais que visassem a valorização do espaço urbano. É o que, mais ou menos, já acontece com o centro tradicional, com o Centro Cultural do Banco do Brasil, Centro Cultural da Caixa, com a revitalização do Cine Olido, do Cine Marabá, entre outros”, diz o pesquisador.


Mais informações: (11) 9510-6352 ou email baider@usp.br, com o pesquisador Eduardo Baider Stefani
Por Paulo Roberto Andrade - paulo.roberto.andrade@usp.br